domingo, 7 de outubro de 2012

quantas vezes nos deparamos com situações que nos afetam a vista, o estômago e a alma de um tal modo tão corrosivo, que instantaneamente evitamo-las, tão naturalmente como olhar para o lado quando nos pedem uma moeda na rua.
somos cegos? lá no fundo, bem no fundo, sabemos bem aquilo que vemos. somos todos atores sociais, como nos diz a sociologia. e, o que serve como desculpa para os nossos atos, também nos confirma que sabemos fingir.
causa-nos grande mau estar saber dessas realidades tão sofridas, tão humanas. sim, porque é humano errar, é humano sofrer e, mais humano ainda, ao que parece, é ver e deixar sofrer.
não podemos dizer que é desumano, pois fazemos isso recorrentemente. e se fazemos, e se somos humanos, então qualquer ato, por mais desumano que seja, tantas vezes praticado, deixa de ser um adjetivo pejorativo para passar a ser uma caraterística da personalidade humana.
há uns dias alguém comentou comigo: 
- há cada vez mais gente a passar fome em Portugal, sabias?
é verdade, não se fala muito nessas situações. fala-se da crise, da austeridade, do desemprego, da dívida pública, das contas por pagar. não do que sobra para comer.
e continuou:
- e, hoje em dia, as pessoas que passam fome podem estar mesmo ao teu lado. sejam vizinhos ou colegas de trabalho que, envergonhados e com medo, não demonstram ter o frigorífico vazio.
é esta a atual conjuntura socioeconómica do nosso país. passámos de uma situação de "novos ricos" para "novos pobres", num instantinho.
e isto reportou-me para a história que ouvi, de uma assistente social, sobre um casal com quatro menores que tinha no seu frigorífico apenas uma pequena caixa de arroz com ervilhas, para partilhar pelos seis, nessa noite. também tinham uma caixa de "nestum", para fazer com água, para o pequeno almoço. nada mais. não haviam vestígios de pão, leite, fruta, legumes ou cereais. 
só de imaginar aquelas crianças com fome e os pais sem comida para lhes dar, o sofrimento que deve causar uma situação assim, a uns e a outros.
e isto é um exemplo do que se passa por esse mundo fora. mas nós não podemos ajudar o mundo inteiro, pois não? é utópico.
e que tal, deixarmo-nos de utopias e perceber se ao nosso lado existe alguém ou alguma  família nessas condições, e ajudar, sem medos. 
dois simples atos. dar e receber. 
e isso também é humano. ou isso é realmente humano, pois bem sabemos a boa sensação que é, ajudar quem precisa.
as pessoas que assim vivem, com pouco ou nada, não podem ter desejos, só sonhos. 
e mesmo assim, para sonhar é preciso ter energia. e sem comida...
e o que é uma vida sem sonhos?

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

hoje sonhei com a minha escola primária.  
caminhava vagarosamente pelo pátio sem objetivo definido, pelo menos aparentemente, onde umas dezenas de crianças gritavam e corriam de um lado para o outro.
tinha a idade que tenho hoje. reconheci-me, enquanto caminhava. 
entre todas aquelas crianças, os meus olhos procuraram algum rosto familiar, sem grande sucesso, pois todos me eram estranhos. 
estranho também era esse facto, pois, parecendo procurar-me, esperava encontrar-me. mas lá está, nem sempre encontramos o que procuramos.
presumi ser hora do recreio, o que veio a confirmar-se com o soar da campainha e o silêncio repentino e imperioso que se fez sentir. logo, logo, interrompido pela voz da professora. 
espreitei pela janela e, num tom monocórdico, lá estava ela, de livro na mão a ditar. os alunos ouviam atentamente e escreviam.
não gostava de fazer ditados. nem eles gostavam, a avaliar pelas expressões faciais.
existe uma palavra que ainda hoje me fica atravessada quando tenho que me lembrar dela. é aquilo que os pedreiros usam para saber se algo está direito ou não. o nível. 
pois é, sempre que a professora me perguntava o nome ou, a partir daí, alguém me pergunta, tenho dificuldade em lembrar-me da palavra.
não gosto de coisas muito direitas, irritam-me e dão-me vontade de entortar. deve ser essa a razão.
continuei a caminhar até às traseiras.
o espaço aberto de terra batida onde tantas vezes joguei à apanhada, à bola e ao bate pé estava agora repleto de pequenas mesas redondas de cimento que mais pareciam cogumelos. estavam colocadas desordenadamente e lembro-me de ter pensado na sua utilidade, que seria nula, pois nem bancos havia.
sentei-me numa delas. ficaram pequeninas de repente. os sonhos têm destas coisas. e olhei para o enorme plátano à minha frente. era o mesmo. foi como reencontrar um amigo. tantos anos passados e ele ainda ali estava, no mesmo sítio, com o seu ar sempre vigoroso e cheio de vida. bonito, pensei.
o despertador tocou para me trazer à luz da realidade ou de outra realidade. 
recordei-me então que há poucos dias tinha passado pela minha escola primária e fiquei muito espantada, ou triste, quando percebi que a escola já não era uma escola, mas sim um motoclube de vespas.
o plátano, esse, continuava lá, no mesmo sítio.
e é mesmo assim. 
como o plátano, e por muito que mude a realidade física, social e cultural à nossa volta, muitos de nós, se não a maioria, temos uma tendência incrível para criar raízes, e com elas mostrar orgulhosamente o “meu” território, o “meu” pedaço de terra, o “meu” pedaço de poder, o “meu” pedaço de mim.
mas, lá no fundo desse “meu”, que achamos sempre tão pequenino pois insistimos sempre em querer ter mais e maior, e também porque não somos plátanos, existe uma vontade de “ir”, revolver e libertar as raízes da terra.
quantos de nós não sonhamos com vespas ou outro meio que nos leve para bem longe ou simplesmente para outro lugar, onde não tenhamos nada e sejamos tudo.

terça-feira, 21 de agosto de 2012


devia apenas ter pedido um abraço.
mas eu queria mais. queremos sempre mais. criamos expectativas e, se não acontece o que desejamos que aconteça, no momento em que queremos que aconteça, cai “o carmo e a trindade” e ai de quem nos diga o contrário. instala-se a ansiedade, a confusão, a discussão, o absurdo. não há volta a dar.
chegou de madrugada, balbuciou uma ou duas palavras, beijou-me e adormeceu de seguida. estava cansado, coitado. devia eu ter compreendido e acedido. mas não! não e não! horas de espera, saudades ou, diria, vontades acercavam-me de todas as frentes. ferviam-me os nervos. não disse nada, há que ser compreensiva e nada impulsiva, dizem as leis do bom senso.
pois sim, para a próxima o que vou querer é nada.
na minha cabeça, a tragédia grega já estava “on air”. virei-me de costas. não dormi.
queria era conversa, eu sei.  conversar, saber coisas. mesmo àquela hora. sim, e depois? saber tudo o que há para saber. mimos, abraços, beijos, risos, sexo. tudo a que se tem direito numa relação. numa relação há que ter e dar atenção. ou não?
sim, sim, está bem, há dias e dias. e há dias em que tê-lo ao lado também chateia. há dias em que chega exatamente à mesma hora e eu zango-me, se me acorda para trocarmos mimos. há dias em que não me apetece, mas confesso que naquela madrugada apetecia-me tanto. assumo o meu egoísmo. ele assumiu o dele quando fechou os olhos.
uma relação? agora não! (dizia eu). o que é um facto é que voltamos vezes sem conta a este sentimento, que tem tanto de bom como de tormento.
quando acordou e me olhou, a minha cara deve ter dito tudo, disse-me «gosto tanto de ti».  mais uns minutos de orgulho para que não hajam maus hábitos, uma pequena discussão para ficar serena e fizemos amor com grande ardor.
todos sabemos que no enamoramento não há discernimento.
sou mulher e as mulheres são assim, disse-me ela por fim, procurando com certeza o meu apoio por ser mulher também.
devias apenas ter pedido um abraço, disse-lhe. 

terça-feira, 14 de agosto de 2012


a noite estava fresca e a brisa húmida que vinha do rio, lá em baixo, ajudava a desenhar algumas figuras abstratas na mesa. não sei se vos acontece, mas eu tenho tendência a transformar manchas, nódoas, nuvens, montes e montanhas em caras e caretas.
dei um gole no mojito enquanto ouvia alguém contar-me as suas histórias de amor. 
contava-me então como, desde os seus sete anos, gostava de um homem que tem permanecido na sua vida, ora em encontros ora em desencontros. 
o seu amor por ele, ou amizade, palavra preferida pela relatora, estava estampado no brilho do seu olhar. cada palavra era proferida com uma doçura tal que mais parecia que cantava uma ode para ele (ou para mim, que a ouvia).
e, naqueles bancos de comboio, gastos pelo tempo em que andaram de um lado para o outro a ouvir outras histórias e a ouvir silêncios, viajei até ao mundo literário de Jane Austen, onde,  após muitas batalhas (eu chamava-lhe antes paciência e persistência) contra a distância espaço temporal e social, o amor vence e tudo acaba bem. 
aquela mulher de cabelos encaracolados e rebeldes, cantava o amor com tal verticalidade que fez-me acreditar que ainda há quem ame de corpo e alma, uma mesma pessoa, durante toda uma vida. 
os seus olhos pareciam luas e eu encantada com elas.
mais histórias me contou, pois os desencontros com um levaram-na aos encontros com outro.
atualmente apaixonada por outro que não esses dois, tenta a todo o custo estar bem sozinha, porque, dizia, tem receio de ficar mal acompanhada e, mal amada, posso eu acrescentar. (ecos dos tempos modernos e que com certeza dariam deliciosos dados romanescos àquela autora).
e realmente no amor, como em tudo na vida é assim. encontros, desencontros ou - encaixa, desencaixa ou não encaixa.
talvez por isso em crianças brincamos com legos. desde cedo tentam-nos ensinar que a peça “a” deve encaixar com a “b” ou a "c" e não com a “d”. 
seria uma lição para a vida, se nos lembrássemos sequer dela ou se nos apercebêssemos bem cedo da sua importância.
na mesa ao lado, uma mulher agarrava as mãos do seu suposto namorado ou marido e dizia-lhe «… abro o meu coração para ti, porque te amo verdadeiramente…»
Felizes aqueles que sabem jogar ao lego.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

felicidade para aqui, felicidade para ali. felicidade e mais felicidade. é o pão nosso de cada dia nas mensagens que nos chegam a toda a hora dos mais variados flancos. 
já devem ter reparado.
ora, nada mais acertado, do que este culto da felicidade. não fossem outros factores.
«devemos mesmo é ser felizes», dizia-me ontem um desconhecido à porta de um restaurante,  de lágrimas nos olhos, enquanto me contava a história de um amigo que durante toda a sua vida sonhou em ser pai e que não conseguiu sê-lo, pois morreu repentinamente, há dias, com trinta e poucos anos. «e, tinha acabado de encontrar aquela que ele intitulava como a mulher da sua vida», disse-me ainda o desconhecido.
alguém logo comentou, «tinha que acontecer, coitado». mais comentários se seguiram do género «há que aproveitar enquanto estamos vivos». 
a verdade é que, após ouvirmos uma história como esta é impossível não sentirmos automaticamente o gosto amargo na boca ao mesmo tempo que fazemos uma revista e avaliação relâmpago pela nossa vida. 
estranha forma esta como reagimos com vida à morte.
tinha que ser, foi o destino ou a vontade de deus, coincidências ou a relatividade das coisas, bem que o rapaz podia viver e nunca conseguir ser pai; não há nada a fazer, de um segundo para o outro a vida pode ir-se, seja lá por que motivo for. 
então se assim é, e questiono isto desde a morte de uma das minhas melhores amigas (primeira situação de perda por morte com que lidei), porque não cuidamos melhor da nossa vida e da nossa felicidade (sendo este, já se sabe, um conceito imensamente abstrato, em que cada um deve saber o que o faz feliz ou pelo menos devia).
então, porquê?
a resposta que me surge de imediato é porque nos julgamos imortais e, fruto da nossa religiosidade ou espiritualidade, julgamo-nos com muitas vidas (mais que os gatos!) ou com uma vida pós-vida num paraíso tão abençoadamente prometido, esquecendo-nos ou relevando a vida que estamos realmente a viver.
não pretendendo retirar qualquer protagonismo e mérito à religiosidade, pois tem a devida importância nas nossas vidas, relembro o nosso tão atarefado quotidiano: cheio de trabalho, de desilusões, de frustrações, de exigências, de trânsito, de filhos a chorar durante a noite, de dores de cabeça ou de outra doença, de comprimidos, de saídas noturnas para aliviar saudades, de amores e desamores, do problema do cão do vizinho, do segundo divórcio do pai, e da tia da prima da avó que nos liga uma vez por mês.
com isto tudo quase nem nos permitimos a estar tristes, quanto mais felizes.
com isto tudo, só quando paramos na nossa cama à noite, e se não adormecermos logo de cansaço, é que percebemos que é lá que sonhamos a maioria das vezes acordados. 
e lá, nesses sonhos, somos felizes.

sábado, 4 de agosto de 2012


hoje ao olhar pela janela do gabinete onde trabalho transportei-me até por volta dos meus 7 anos de idade e recordei, muito nitidamente, o que sentia ao estar fechada numa sala de aulas.
também naquele tempo, em vez de olhar para onde devia (para o livro de lições cravado à minha frente), desviava a atenção para a janela que me mostrava o céu, e lá, nem sequer sonhava, pelo menos não me lembro de
 sonhar, lá vivia longos minutos até que a professora me chamava à terra.
nota na caderneta da aluna, desse ano e de outros - «… distrai-se por vezes no mundo da lua». ora, mal sabia eu, naquela altura, a minha tão grande identificação com esta frase.
cheguei a pensar, vejam lá, inocência de criança, que com uma cana, aquelas canas que crescem junto ao rio e com as quais a minha avó segurava o arame onde estendia a roupa, conseguia tocar o céu.
e agora recordo-me que, com essas canas ou caniços, como chamam, também se faziam (e fazem com certeza) flautas. Tentei fazer várias, sem grande sucesso. Cortava a cana, fazia uns buracos, soprava e nada. achava eu que seria preciso algum tipo de magia para a flauta começar a tocar. agora sei que era mesmo falta de jeito.
com o computador à minha frente e o dever de boa trabalhadora a martelar-me na cabeça, hoje, os meus olhos, o espelho da alma como dizem, preferiram viajar pelas nuvens, como se estivesse hipnotizada. contemplei apenas e chegou. nem desejei lá estar. verdade que noutros dias, quando olho o céu, desejo voar. mas hoje não.
hoje fui o azul. hoje fui feliz.

num destes dias de muito calor, estava eu na praia, deitada na toalha e acabada de acordar de uma daquelas sestas em que até nos babamos (mas que sabem tão bem), espreitei por baixo do meu braço direito, sem levantar a cabeça, e a imagem que me surgiu foi a de um pai e filho (assim pareciam) a brincar à beira mar.
jogavam à bola, riam e gritavam com tanta folia que mais parecia que estavam num estádio de futebol. possivelmente estavam contentes por não estarem nem na escola nem a trabalhar. ou tão somente por estarem juntos, sem sequer importar o motivo.
sentei-me, ainda zonza. estava muito calor. fiquei indisposta por estar tanto tempo ali deitada ao sol. bebi água. raios, estava morna.
mais crianças e pais andavam por ali a jogar. delicio-me com três coisas sempre que estou na praia, nestes dias de verão - a cor do mar, o cheiro dos protetores solares e a algazarra feita pelas crianças. e porque também é importante dizer o que não se gosta, não vão achar que gosto de tudo, não gosto de levar com areia na cara, trazida pelo vento, e menos ainda que me molhem com água gelada (uma das brincadeiras mais apreciadas quando alguém está a tentar entrar no mar, muito tranquilamente).
voltando às crianças, pergunto-vos então se já as observaram, com alguma atenção, na praia?
ora podemos vê-las a mergulhar, ora a chapinhar, sem se importarem se a água está fria ou quente. o vento não as incomoda. as horas também não. e até areia comem. gritam e falam tão alto como se estivessem no cimo de uma montanha. e é isso que sentem, com certeza. que estão lá no alto. nós sabemo-lo bem, conhecemos a sensação (com a idade é que vamos perdendo o pio).
contagiam-nos de tal forma que é ver-nos a fazer macacadas que noutros cenários seria (quase) improvável.
o suposto pai e o suposto filho estavam agora a brincar na areia com um carro, que mais parecia uma bulldozer. caminhei até perto deles e sentei-me de pernas estendidas para tocar o mar. a agua continuava fria. já a tinha experimentado antes de adormecer. 
mergulhei os pés na areia molhada e senti cada grão em cada poro da minha pele. senti literalmente, naquele momento, os pés bem assentes na terra. inclinei a cabeça para trás e lá estava ela, imponente e verde - a serra. as cigarras cantaram eufóricas durante todo o dia. também elas, de certo modo, eram como aquelas crianças ali na praia. felizes.
entretanto, pai e filho conversavam (ou melhor, o pai falava):
- não molhes isso, filho.
a criança olhou-o com um ar interrogativo.
- ó filho, o mar é salgado, e se é salgado é porque tem?
silêncio.
- o mar é salgado, e se é salgado é porque tem?
silêncio.
- o mar é salgado, e se é salgado é porque tem?
silêncio.
- porque tem sal, filho.
silêncio. (a criança, de não mais de cinco anos, tenta novamente colocar o carro dentro de água).
- não filho, a água tem sal e o sal enferruja o ferro e as rodas têm ferro. e se enferrujam, depois não andam. é por isso que o pai não deixa o nosso carro muito tempo ao pé do mar.
silêncio. 
o pai satisfeito por ter conseguido explicar ao filho o processo de oxidação, leva o carro de volta para a toalha, a criança satisfeita por nada perceber, brinca com pedrinhas e atira-as ao mar. pergunto-me como seria a explicação da mãe. provavelmente nem iria lembrar-se daquele processo. um carro é um carro. e serve para o que serve. naquele caso, para brincar. água com ele, era o mais certo.
não achando, de modo algum, uma informação útil para uma criança tão pequena achei piada à dedicação do pai em ensinar algo ao filho de uma forma tão técnica e tão precisa. e ri-me ao imaginar o modo como explicará algumas questões mais sensíveis, de outros âmbitos, quando a sua criança tão descaradamente as colocar, nos locais e momentos mais impróprios.
era uma criança cheia de sorte, aquela.

ontem à noite deleitei-me a olhar um céu imensamente estrelado. tive a sorte, se é que se pode falar aqui de sorte, de conhecer um lugar que, não se encontrando a uma grande altitude, transmite-nos uma tal sensação de grandeza que julgamos conseguir tocar as estrelas.
há quem diga que já esteve em lugares onde se sente mais próximo de deus. aquele bem que podia ser um desses lugares sagrados. e, n
a verdade, até conheço quem tornasse aquele lugar, o seu lugar sagrado, mas de férias.
religiosidades à parte (ou não), contemplar aquele céu e sentir o calor emanado por toda aquela terra vermelha que me empoeirava os pés, fez com que me sentisse tanto um pedaço de estrela como um pedaço de pó.
de braços aberto girei, girei e girei como fazia em criança. só as crianças giram assim. porque será? todos sabemos a resposta, seguramente.
lembrei-me então do que, certo dia, uma criança me disse - «se girares e ao mesmo tempo olhares para o céu não ficas tonta». disse que era segredo e agora percebo porquê. quase caí. ela queria que eu (re)experimentasse, sem medos.
e, enquanto me tentava equilibrar, observei o quão pequena sou, encaixada em algo tão grande. pensamento banal, eu sei. somos uma tal insignificância, que todos os dias, a toda a hora, temos que (re)descobrir a nossa própria significância para que tudo isto tenha algum sentido (mesmo que ilusório ou incerto), e isso é de louvar!
continuámos a caminhar para casa, a conversar sobre o calor, o lago, o baile, o cinema do dia seguinte, o jantar de terça e os mineiros que moraram ali. não mais me lembrei das estrelas, nem de significados ou de sentidos.
foi então que me apercebi que, quando contemplamos algo tão grandioso, sentimo-nos mais perto da grande verdade, de nós mesmos, da nossa origem, de deus, como queiram chamar. 
sentimo-nos felizes. 
mas, precisamos sempre de algo mais, certo?

enquanto caminhava a todo custo com os meus saltos altos pela calçada (um dia hei-de escrever sobre isto), diziam-me ao telefone: «despacha-te, estamos na cozinha».
mecanicamente, acelerei o passo, toda torta, enquanto perguntava, «mas o que estão vocês a fazer na cozinha?». 
«já vais ver», e desligaram. 
foram conhecer o chef, só pode, pensei. estou tão cansada, quero é comer! o dia tinha sido com
prido, sem muitas pausas. 
mas, pensando bem, assim fico também a conhecer a cozinha e quem cozinha. nem sempre nos lembramos que existem umas mãos naquilo que comemos. mas existem.
continuando, lá cheguei ao sítio. 
quando entro, e começo a aperceber-me onde estou, compreendo imediatamente o que me queriam dizer. entrei em casa. não na minha. na casa de alguém. ou pelo menos que em tempos teria sido.
o corredor rectilíneo percorria a casa como se fosse a base de uma árvore, para ser um pouco espirituosa na descrição. à medida que ia avançando, as salas, salinhas e salão, todas ao lado esquerdo, surgiam como troncos e com elas gentes, vozes, risos e copos. 
ao fundo, em frente, lá estava, a cozinha. mais uma vez o (meu) caminho era em frente. 
cheguei. sentei-me. falei, ri, relaxei, calei-me. falámos todos, rimos todos, calámo-nos todos. convivemos (vivemos, naquele momento, mesmo que só aquele momento, em união). basicamente, aquilo que se faz em casa. ou assim deveria fazer-se.
quantas vezes estamos em casa e não convivemos? e a maioria das vezes tão acompanhados que estamos! 
ali, naquele lugar, não sendo a minha nem a casa de ninguém (ou afinal até era a de muita gente), senti-me também em casa. 
tudo é realmente relativo. 
não basta estar em casa, há que sentirmo-nos em casa.
quando saí apercebi-me que não havia despensa.
hoje visitei um daqueles locais que nos fazem calar assim que pisamos a entrada, seja pelas dimensões  arquitetónicas, seja pelos rituais que por ali se vivenciam, seja ainda e tão só por estarem realmente todos calados. rendi-me e calei-me também. a luta foi mesmo entre o sentir e o pensar.
em todo aquele ambiente estático o que vai alterando a paisagem são as pessoas que por ali vão passando e as
 cores do que vestem. pessoas daqui, dali, de todo o mundo. é um local multicultural para não dizer multidimensional (e entrar noutros campos), mas também é um local onde todos se querem iguais.
passadas umas horas de andar de um lado para o outro, já não notava qualquer diferença entre o vermelho da camisa de um e o branco da t-shirt de outro. ali todos passam a vestir a mesma camisola, o mesmo hábito.
ali é possível também ver a tristeza no rosto estampada transformar-se numa nova esperança, o amor devoto por algo maior, uma fé tão profunda, transformar-se numa felicidade inabalável.
ali as promessas não se quebram, cumprem-se. 
ali o ser humano rende-se e sente-se pequeno. ali o ser humano deseja ser maior.
as pernas começaram a pesar. sentei-me. continuei calada, como os demais. 
pensei então, porque conseguimos nós acreditar, ser tão devotos, entregar o nosso coração, o nosso amor, a nossa alma e até os joelhos a algo (alguém) que não vemos e não conseguimos fazer o mesmo a quem está a nosso lado todos os dias. ou a nós mesmos. algo está errado?
ali pede-se por saúde e felicidade e ninguém se ri. 
ali pede-se perdão pelos pecados e ninguém chora. 
ali os homens deixam de ser filhos de uma mãe para serem filhos de um pai. 
ali também se celebram casamentos. assisti a um. 
dizia o padre para a noiva que se ria às gargalhadas, nervosa ou simplesmente bem disposta, "sem stress, minha filha, sem stress".
e eu ali, naquele momento, consegui sentir apenas. 
e rir.
afinal por ali também há humor. ufa! 
um lugar deveras suis generis.