sábado, 4 de agosto de 2012


enquanto caminhava a todo custo com os meus saltos altos pela calçada (um dia hei-de escrever sobre isto), diziam-me ao telefone: «despacha-te, estamos na cozinha».
mecanicamente, acelerei o passo, toda torta, enquanto perguntava, «mas o que estão vocês a fazer na cozinha?». 
«já vais ver», e desligaram. 
foram conhecer o chef, só pode, pensei. estou tão cansada, quero é comer! o dia tinha sido com
prido, sem muitas pausas. 
mas, pensando bem, assim fico também a conhecer a cozinha e quem cozinha. nem sempre nos lembramos que existem umas mãos naquilo que comemos. mas existem.
continuando, lá cheguei ao sítio. 
quando entro, e começo a aperceber-me onde estou, compreendo imediatamente o que me queriam dizer. entrei em casa. não na minha. na casa de alguém. ou pelo menos que em tempos teria sido.
o corredor rectilíneo percorria a casa como se fosse a base de uma árvore, para ser um pouco espirituosa na descrição. à medida que ia avançando, as salas, salinhas e salão, todas ao lado esquerdo, surgiam como troncos e com elas gentes, vozes, risos e copos. 
ao fundo, em frente, lá estava, a cozinha. mais uma vez o (meu) caminho era em frente. 
cheguei. sentei-me. falei, ri, relaxei, calei-me. falámos todos, rimos todos, calámo-nos todos. convivemos (vivemos, naquele momento, mesmo que só aquele momento, em união). basicamente, aquilo que se faz em casa. ou assim deveria fazer-se.
quantas vezes estamos em casa e não convivemos? e a maioria das vezes tão acompanhados que estamos! 
ali, naquele lugar, não sendo a minha nem a casa de ninguém (ou afinal até era a de muita gente), senti-me também em casa. 
tudo é realmente relativo. 
não basta estar em casa, há que sentirmo-nos em casa.
quando saí apercebi-me que não havia despensa.

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