felicidade para aqui, felicidade para ali. felicidade e mais felicidade. é o pão nosso de cada dia nas mensagens que nos chegam a toda a hora dos mais variados flancos.
já devem ter reparado.
ora, nada mais acertado, do que este culto da felicidade. não fossem outros factores.
«devemos mesmo é ser felizes», dizia-me ontem um desconhecido à porta de um restaurante, de lágrimas nos olhos, enquanto me contava a história de um amigo que durante toda a sua vida sonhou em ser pai e que não conseguiu sê-lo, pois morreu repentinamente, há dias, com trinta e poucos anos. «e, tinha acabado de encontrar aquela que ele intitulava como a mulher da sua vida», disse-me ainda o desconhecido.
alguém logo comentou, «tinha que acontecer, coitado». mais comentários se seguiram do género «há que aproveitar enquanto estamos vivos».
a verdade é que, após ouvirmos uma história como esta é impossível não sentirmos automaticamente o gosto amargo na boca ao mesmo tempo que fazemos uma revista e avaliação relâmpago pela nossa vida.
estranha forma esta como reagimos com vida à morte.
tinha que ser, foi o destino ou a vontade de deus, coincidências ou a relatividade das coisas, bem que o rapaz podia viver e nunca conseguir ser pai; não há nada a fazer, de um segundo para o outro a vida pode ir-se, seja lá por que motivo for.
então se assim é, e questiono isto desde a morte de uma das minhas melhores amigas (primeira situação de perda por morte com que lidei), porque não cuidamos melhor da nossa vida e da nossa felicidade (sendo este, já se sabe, um conceito imensamente abstrato, em que cada um deve saber o que o faz feliz ou pelo menos devia).
então, porquê?
a resposta que me surge de imediato é porque nos julgamos imortais e, fruto da nossa religiosidade ou espiritualidade, julgamo-nos com muitas vidas (mais que os gatos!) ou com uma vida pós-vida num paraíso tão abençoadamente prometido, esquecendo-nos ou relevando a vida que estamos realmente a viver.
não pretendendo retirar qualquer protagonismo e mérito à religiosidade, pois tem a devida importância nas nossas vidas, relembro o nosso tão atarefado quotidiano: cheio de trabalho, de desilusões, de frustrações, de exigências, de trânsito, de filhos a chorar durante a noite, de dores de cabeça ou de outra doença, de comprimidos, de saídas noturnas para aliviar saudades, de amores e desamores, do problema do cão do vizinho, do segundo divórcio do pai, e da tia da prima da avó que nos liga uma vez por mês.
com isto tudo quase nem nos permitimos a estar tristes, quanto mais felizes.
com isto tudo, só quando paramos na nossa cama à noite, e se não adormecermos logo de cansaço, é que percebemos que é lá que sonhamos a maioria das vezes acordados.
e lá, nesses sonhos, somos felizes.
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