quantas vezes nos deparamos com situações que nos afetam a vista, o estômago e a alma de um tal modo tão corrosivo, que instantaneamente evitamo-las, tão naturalmente como olhar para o lado quando nos pedem uma moeda na rua.
somos cegos? lá no fundo, bem no fundo, sabemos bem aquilo que vemos. somos todos atores sociais, como nos diz a sociologia. e, o que serve como desculpa para os nossos atos, também nos confirma que sabemos fingir.
causa-nos grande mau estar saber dessas realidades tão sofridas, tão humanas. sim, porque é humano errar, é humano sofrer e, mais humano ainda, ao que parece, é ver e deixar sofrer.
não podemos dizer que é desumano, pois fazemos isso recorrentemente. e se fazemos, e se somos humanos, então qualquer ato, por mais desumano que seja, tantas vezes praticado, deixa de ser um adjetivo pejorativo para passar a ser uma caraterística da personalidade humana.
há uns dias alguém comentou comigo:
- há cada vez mais gente a passar fome em Portugal, sabias?
é verdade, não se fala muito nessas situações. fala-se da crise, da austeridade, do desemprego, da dívida pública, das contas por pagar. não do que sobra para comer.
e continuou:
- e, hoje em dia, as pessoas que passam fome podem estar mesmo ao teu lado. sejam vizinhos ou colegas de trabalho que, envergonhados e com medo, não demonstram ter o frigorífico vazio.
é esta a atual conjuntura socioeconómica do nosso país. passámos de uma situação de "novos ricos" para "novos pobres", num instantinho.
e isto reportou-me para a história que ouvi, de uma assistente social, sobre um casal com quatro menores que tinha no seu frigorífico apenas uma pequena caixa de arroz com ervilhas, para partilhar pelos seis, nessa noite. também tinham uma caixa de "nestum", para fazer com água, para o pequeno almoço. nada mais. não haviam vestígios de pão, leite, fruta, legumes ou cereais.
só de imaginar aquelas crianças com fome e os pais sem comida para lhes dar, o sofrimento que deve causar uma situação assim, a uns e a outros.
e isto é um exemplo do que se passa por esse mundo fora. mas nós não podemos ajudar o mundo inteiro, pois não? é utópico.
e que tal, deixarmo-nos de utopias e perceber se ao nosso lado existe alguém ou alguma família nessas condições, e ajudar, sem medos.
dois simples atos. dar e receber.
e isso também é humano. ou isso é realmente humano, pois bem sabemos a boa sensação que é, ajudar quem precisa.
as pessoas que assim vivem, com pouco ou nada, não podem ter desejos, só sonhos.
e mesmo assim, para sonhar é preciso ter energia. e sem comida...
e o que é uma vida sem sonhos?
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