terça-feira, 14 de agosto de 2012


a noite estava fresca e a brisa húmida que vinha do rio, lá em baixo, ajudava a desenhar algumas figuras abstratas na mesa. não sei se vos acontece, mas eu tenho tendência a transformar manchas, nódoas, nuvens, montes e montanhas em caras e caretas.
dei um gole no mojito enquanto ouvia alguém contar-me as suas histórias de amor. 
contava-me então como, desde os seus sete anos, gostava de um homem que tem permanecido na sua vida, ora em encontros ora em desencontros. 
o seu amor por ele, ou amizade, palavra preferida pela relatora, estava estampado no brilho do seu olhar. cada palavra era proferida com uma doçura tal que mais parecia que cantava uma ode para ele (ou para mim, que a ouvia).
e, naqueles bancos de comboio, gastos pelo tempo em que andaram de um lado para o outro a ouvir outras histórias e a ouvir silêncios, viajei até ao mundo literário de Jane Austen, onde,  após muitas batalhas (eu chamava-lhe antes paciência e persistência) contra a distância espaço temporal e social, o amor vence e tudo acaba bem. 
aquela mulher de cabelos encaracolados e rebeldes, cantava o amor com tal verticalidade que fez-me acreditar que ainda há quem ame de corpo e alma, uma mesma pessoa, durante toda uma vida. 
os seus olhos pareciam luas e eu encantada com elas.
mais histórias me contou, pois os desencontros com um levaram-na aos encontros com outro.
atualmente apaixonada por outro que não esses dois, tenta a todo o custo estar bem sozinha, porque, dizia, tem receio de ficar mal acompanhada e, mal amada, posso eu acrescentar. (ecos dos tempos modernos e que com certeza dariam deliciosos dados romanescos àquela autora).
e realmente no amor, como em tudo na vida é assim. encontros, desencontros ou - encaixa, desencaixa ou não encaixa.
talvez por isso em crianças brincamos com legos. desde cedo tentam-nos ensinar que a peça “a” deve encaixar com a “b” ou a "c" e não com a “d”. 
seria uma lição para a vida, se nos lembrássemos sequer dela ou se nos apercebêssemos bem cedo da sua importância.
na mesa ao lado, uma mulher agarrava as mãos do seu suposto namorado ou marido e dizia-lhe «… abro o meu coração para ti, porque te amo verdadeiramente…»
Felizes aqueles que sabem jogar ao lego.

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