num destes dias de muito calor, estava eu na praia, deitada na toalha e acabada de acordar de uma daquelas sestas em que até nos babamos (mas que sabem tão bem), espreitei por baixo do meu braço direito, sem levantar a cabeça, e a imagem que me surgiu foi a de um pai e filho (assim pareciam) a brincar à beira mar.
jogavam à bola, riam e gritavam com tanta folia que mais parecia que estavam num estádio de futebol. possivelmente estavam contentes por não estarem nem na escola nem a trabalhar. ou tão somente por estarem juntos, sem sequer importar o motivo.
sentei-me, ainda zonza. estava muito calor. fiquei indisposta por estar tanto tempo ali deitada ao sol. bebi água. raios, estava morna.
mais crianças e pais andavam por ali a jogar. delicio-me com três coisas sempre que estou na praia, nestes dias de verão - a cor do mar, o cheiro dos protetores solares e a algazarra feita pelas crianças. e porque também é importante dizer o que não se gosta, não vão achar que gosto de tudo, não gosto de levar com areia na cara, trazida pelo vento, e menos ainda que me molhem com água gelada (uma das brincadeiras mais apreciadas quando alguém está a tentar entrar no mar, muito tranquilamente).
voltando às crianças, pergunto-vos então se já as observaram, com alguma atenção, na praia?
ora podemos vê-las a mergulhar, ora a chapinhar, sem se importarem se a água está fria ou quente. o vento não as incomoda. as horas também não. e até areia comem. gritam e falam tão alto como se estivessem no cimo de uma montanha. e é isso que sentem, com certeza. que estão lá no alto. nós sabemo-lo bem, conhecemos a sensação (com a idade é que vamos perdendo o pio).
contagiam-nos de tal forma que é ver-nos a fazer macacadas que noutros cenários seria (quase) improvável.
o suposto pai e o suposto filho estavam agora a brincar na areia com um carro, que mais parecia uma bulldozer. caminhei até perto deles e sentei-me de pernas estendidas para tocar o mar. a agua continuava fria. já a tinha experimentado antes de adormecer.
mergulhei os pés na areia molhada e senti cada grão em cada poro da minha pele. senti literalmente, naquele momento, os pés bem assentes na terra. inclinei a cabeça para trás e lá estava ela, imponente e verde - a serra. as cigarras cantaram eufóricas durante todo o dia. também elas, de certo modo, eram como aquelas crianças ali na praia. felizes.
entretanto, pai e filho conversavam (ou melhor, o pai falava):
- não molhes isso, filho.
a criança olhou-o com um ar interrogativo.
- ó filho, o mar é salgado, e se é salgado é porque tem?
silêncio.
- o mar é salgado, e se é salgado é porque tem?
silêncio.
- o mar é salgado, e se é salgado é porque tem?
silêncio.
- porque tem sal, filho.
silêncio. (a criança, de não mais de cinco anos, tenta novamente colocar o carro dentro de água).
- não filho, a água tem sal e o sal enferruja o ferro e as rodas têm ferro. e se enferrujam, depois não andam. é por isso que o pai não deixa o nosso carro muito tempo ao pé do mar.
silêncio.
o pai satisfeito por ter conseguido explicar ao filho o processo de oxidação, leva o carro de volta para a toalha, a criança satisfeita por nada perceber, brinca com pedrinhas e atira-as ao mar. pergunto-me como seria a explicação da mãe. provavelmente nem iria lembrar-se daquele processo. um carro é um carro. e serve para o que serve. naquele caso, para brincar. água com ele, era o mais certo.
não achando, de modo algum, uma informação útil para uma criança tão pequena achei piada à dedicação do pai em ensinar algo ao filho de uma forma tão técnica e tão precisa. e ri-me ao imaginar o modo como explicará algumas questões mais sensíveis, de outros âmbitos, quando a sua criança tão descaradamente as colocar, nos locais e momentos mais impróprios.
era uma criança cheia de sorte, aquela.
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