caminhava vagarosamente pelo pátio sem
objetivo definido, pelo menos aparentemente, onde umas dezenas de crianças
gritavam e corriam de um lado para o outro.
tinha a idade que tenho hoje. reconheci-me, enquanto caminhava.
entre todas aquelas crianças, os meus
olhos procuraram algum rosto familiar, sem grande sucesso, pois todos me eram
estranhos.
estranho também era esse facto, pois, parecendo procurar-me, esperava encontrar-me. mas lá está, nem sempre encontramos o que procuramos.
estranho também era esse facto, pois, parecendo procurar-me, esperava encontrar-me. mas lá está, nem sempre encontramos o que procuramos.
presumi ser hora do recreio, o que veio
a confirmar-se com o soar da campainha e o silêncio repentino e imperioso
que se fez sentir. logo, logo, interrompido pela voz da professora.
espreitei pela janela e, num tom
monocórdico, lá estava ela, de livro na mão a ditar. os alunos ouviam
atentamente e escreviam.
não gostava de fazer ditados. nem eles
gostavam, a avaliar pelas expressões faciais.
existe uma palavra que ainda hoje me fica
atravessada quando tenho que me lembrar dela. é aquilo que os pedreiros usam
para saber se algo está direito ou não. o nível.
pois é, sempre que a professora me perguntava o
nome ou, a partir daí, alguém me pergunta, tenho dificuldade em lembrar-me da
palavra.
não gosto de coisas muito direitas, irritam-me e
dão-me vontade de entortar. deve ser essa a razão.
continuei a caminhar até às traseiras.
o espaço aberto de terra batida onde tantas
vezes joguei à apanhada, à bola e ao bate pé estava agora repleto de
pequenas mesas redondas de cimento que mais pareciam cogumelos. estavam
colocadas desordenadamente e lembro-me de ter pensado na sua utilidade, que
seria nula, pois nem bancos havia.
sentei-me numa delas. ficaram pequeninas de repente. os sonhos têm destas coisas. e olhei para o enorme plátano à minha frente.
era o mesmo. foi como reencontrar um amigo. tantos anos passados e ele ainda
ali estava, no mesmo sítio, com o seu ar sempre vigoroso e cheio de vida. bonito,
pensei.
o despertador tocou para me trazer à luz da realidade ou de outra realidade.
recordei-me então que há poucos dias tinha passado
pela minha escola primária e fiquei muito espantada, ou triste, quando percebi
que a escola já não era uma escola, mas sim um motoclube de vespas.
o plátano, esse, continuava lá, no mesmo sítio.
e é mesmo assim.
como o plátano, e por muito que mude a realidade física, social e cultural à nossa volta, muitos de nós, se não a maioria, temos uma tendência incrível para criar raízes, e com elas mostrar orgulhosamente o “meu” território, o “meu” pedaço de terra, o “meu” pedaço de poder, o “meu” pedaço de mim.
como o plátano, e por muito que mude a realidade física, social e cultural à nossa volta, muitos de nós, se não a maioria, temos uma tendência incrível para criar raízes, e com elas mostrar orgulhosamente o “meu” território, o “meu” pedaço de terra, o “meu” pedaço de poder, o “meu” pedaço de mim.
mas, lá no fundo desse “meu”, que achamos sempre tão
pequenino pois insistimos sempre em querer ter mais e maior, e também porque
não somos plátanos, existe uma vontade de “ir”, revolver e libertar as raízes da
terra.
quantos de nós não sonhamos com vespas ou outro meio que
nos leve para bem longe ou simplesmente para outro lugar, onde não tenhamos
nada e sejamos tudo.
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