devia apenas ter pedido um abraço.
mas eu queria mais. queremos
sempre mais. criamos expectativas e, se não acontece o que desejamos que
aconteça, no momento em que queremos que aconteça, cai “o carmo e a trindade” e
ai de quem nos diga o contrário. instala-se a ansiedade, a confusão, a
discussão, o absurdo. não há volta a dar.
chegou de madrugada, balbuciou
uma ou duas palavras, beijou-me e adormeceu de seguida. estava cansado,
coitado. devia eu ter compreendido e acedido. mas não! não e não! horas de
espera, saudades ou, diria, vontades acercavam-me de todas as frentes. ferviam-me
os nervos. não disse nada, há que ser compreensiva e nada impulsiva, dizem as
leis do bom senso.
pois sim, para a próxima o que
vou querer é nada.
na minha cabeça, a tragédia grega
já estava “on air”. virei-me de costas. não dormi.
queria era conversa, eu sei. conversar, saber coisas. mesmo àquela hora.
sim, e depois? saber tudo o que há para saber. mimos, abraços, beijos, risos, sexo.
tudo a que se tem direito numa relação. numa relação há que ter e dar atenção. ou
não?
sim, sim, está bem, há dias e
dias. e há dias em que tê-lo ao lado também chateia. há dias em que chega exatamente
à mesma hora e eu zango-me, se me acorda para trocarmos mimos. há dias em que
não me apetece, mas confesso que naquela madrugada apetecia-me tanto. assumo o meu
egoísmo. ele assumiu o dele quando fechou os olhos.
uma relação? agora não! (dizia
eu). o que é um facto é que voltamos vezes sem conta a este sentimento, que tem
tanto de bom como de tormento.
quando acordou e me olhou, a
minha cara deve ter dito tudo, disse-me «gosto tanto de ti». mais uns minutos de orgulho para que não hajam
maus hábitos, uma pequena discussão para ficar serena e fizemos amor com grande
ardor.
todos sabemos que no enamoramento
não há discernimento.
sou mulher e as mulheres são
assim, disse-me ela por fim, procurando com certeza o meu apoio por ser mulher
também.
devias apenas ter pedido um
abraço, disse-lhe.